terça-feira, 7 de outubro de 2008

Você mataria uma pessoa para salvar cinco?

Classificação Principal: Cosmoética
Classificação Específica: Holomaturologia

Classificações Secundárias: Evoluciologia

Andrews, Susan; Você mataria uma pessoa para salvar cinco? URL: http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo/Artigo/exibir.ssp?artigoId=78638&secaoId=6048&edicao=483; 17/08/2007 - 22:29 | Edição nº 483


Susan Andrews é psicóloga e monja iogue. Autora do livro Stress a Seu Favor, ela coordena a ecovila Parque Ecológico Visão Futuro e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. www.visaofuturo.org.br
susan@edglobo.com.br

Imagine que você está de pé, diante de uma ferrovia, e um trem se aproxima rapidamente. Em sua frente há uma bifurcação nos trilhos. Você pode acionar o mecanismo que move o trem para um lado ou para o outro. Só que cinco pessoas inocentes, inconscientes da chegada do trem, estão de pé sobre os trilhos que vão para a direita. E outra pessoa inocente está de pé sobre os trilhos que vão para a esquerda. Caso você não faça nada, o trem irá para a direita e matará as cinco pessoas. Mas, se acionar a alavanca, o trem será desviado para a esquerda e matará aquela única pessoa.

É preciso decidir instantaneamente. Será que você deveria acionar a alavanca? Caso tenha respondido sim, você está em boa companhia. A ética utilitária há tempos tem asseverado que a ação moralmente correta é aquela que gera “o maior benefício para o maior número”. Melhor que morra um do que cinco. E determinar o maior benefício, segundo o filósofo alemão Immanuel Kant, é a função da razão. De fato, quando esse dilema moral é apresentado às pessoas, a maioria sempre decide acionar a alavanca.

Agora imagine estar de pé numa ponte que passa por cima do trilho do trem. Um homem grande está a seu lado. Um trem-bala se aproxima. Logo depois da ponte, cinco pessoas inocentes estão de pé nos trilhos. A única maneira de salvá-las é empurrar o homem da ponte, para que ele caia nos trilhos e faça o trem parar. Você deveria fazer isso?

Se você recusou, também está em boa companhia. A maioria dos participantes nos testes não empurraria o homem para a morte. Isso sempre intrigou os especialistas em ética. Qual é a diferença? Em ambos os casos, um morre em vez de cinco. E em ambos os casos, foi você quem executou a ação que causou a morte, e o maior benefício para o maior número. Então por que a hesitação no segundo caso?

Essa questão interessou tanto os neurocientistas da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, que eles fizeram imagens cerebrais de voluntários enquanto eles tomavam as decisões. Descobriram que criamos um bloqueio emocional quando pensamos em empurrar o homem para a morte, e as regiões emocionais do cérebro se acendem. Essas regiões se mantêm silenciosas no caso de acionar a alavanca. Parece que o filósofo escocês David Hume estava certo quando insistiu que “as regras da moralidade não são conclusões da nossa razão”, mas das nossas emoções.

Quanto mais se pesquisa, mais parece que a fundação da moralidade é a empatia

Recentemente, Antônio Damásio, da Universidade da Califórnia, descobriu algo mais interessante. Pessoas com lesões na área cerebral ligada à empatia e à compaixão, o córtex pré-frontal ventromedial, não têm quaisquer escrúpulos quanto a empurrar o homem da ponte. Elas friamente chegam às conclusões do tipo os fins justificam os meios. Quanto mais os pesquisadores aprendem, mais parece que a fundação da moralidade é a empatia.

Foi o filósofo alemão Arthur Schopenhauer quem declarou que a chave para a ética seria cultivar nossa tendência natural para a compaixão. Aquele que se identifica profundamente com os sentimentos dos outros será incapaz de ferir ou explorar alguém. Todas as suas ações vão fluir espontaneamente de um senso de justiça e benevolência. James Jones, autor americano da novela Daqui para a Eternidade, escreveu: “As pessoas (...) se deram conta, no momento da morte, que a humanidade precisa evoluir até a empatia, ou se extinguir. Mas os mortos não conseguem falar”.

Se a empatia é a raiz da ética, em vez de racionalmente ensinar a nossas crianças regras morais, será que não deveríamos desenvolver uma educação para a empatia? Uma educação para o coração? Essa mútua simpatia é o tesouro humano mais precioso. É por isso que naquele trágico dia todos nós sentimos, e ainda estamos sentindo, a dor dos passageiros do vôo 3054 da TAM e de seus parentes, reverberando em nossos próprios corações.


http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG78638-6048-483,00-VOCE+MATARIA+UMA+PESSOA+PARA+SALVAR+CINCO.html



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