quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Relíquia à Vista

Classificação Principal: Holomaturologia
Classificação Específica: Incompatibilidades
Classificações Secundárias: Interrelações Opositivas; Conviviologia; Comunicologia; Experimentologia; Evoluciologia

Junqueira, Eduardo; Relíquia à Vista; http://veja.abril.com.br/250398/p_076.html

Relíquia à vista

Primeira exposição do Sudário após vinte
anos deverá atrair 10 milhões de fiéis à Itália

Eduardo Junqueira

Foto: Varnon Miller
No círculo, a imagem tridimensional que a Nasa obteve ao analisar um recorte do Sudário

Depois de demonstrar sua força política com a visita do papa João Paulo II a Cuba, no início do ano, a Igreja Católica anuncia para o próximo mês a prova de que também é forte no terreno da fé. Guardado em uma pequena caixa de prata nos últimos vinte anos, o Santo Sudário, um tecido de linho com a imagem de um homem torturado que se supõe ser Jesus Cristo morto, estará novamente em exposição entre 18 de abril e 14 de junho em Turim, na Itália. A relíquia estará protegida por uma caixa de vidro de 2 centímetros de espessura e cada fiel terá menos de um minuto para observá-la. Nada disso, porém, deverá arrefecer o ímpeto católico, e a arquidiocese italiana espera receber 10 milhões de peregrinos de todo o mundo. Se a cifra se confirmar, será o maior evento católico dos últimos anos. O santuário de Lourdes, na França, recebe em média 5 milhões de peregrinos por ano. Aparecida, no interior de São Paulo, é visitada por 7 milhões de fiéis. Na última exposição, em 1978, o Sudário atraiu 3,5 milhões de pessoas.

A força religiosa do Santo Sudário está na imagem impressa sobre o tecido de linho, prova suprema da ressurreição para milhões de católicos. Trata-se do corpo de um homem de aproximadamente 1,81 metro de altura e 81 quilos, que guarda semelhanças impressionantes com a descrição da imagem de Jesus na Bíblia. Na década de 30, o cirurgião francês Pierre Barbet ajudou a sedimentar a mística em torno do objeto. Barbet descobriu que as chagas visíveis no Sudário são típicas de uma vítima de crucificação nos tempos de Cristo. Constatou, por exemplo, que os polegares do homem do Sudário não estão registrados na imagem porque o cravo preso sobre o pulso puxa o dedo para o meio da palma da mão. O homem do Sudário também tem uma perfuração semelhante à ponta de uma lança no lado direito do peito, repetindo o que os Evangelhos descrevem sobre a crucificação.

Desenho de como
Cristo teria sido
envolvido após a morte

A presença de milhões de fiéis em Turim será também a demonstração mais eloqüente de que a fé quase sempre suplanta a razão. Em 1988, uma pesquisa realizada por três centros de pesquisa, na Inglaterra, Suíça e Estados Unidos, sob a coordenação da Universidade do Arizona, revelou que o tecido do Sudário teria sido fabricado entre os anos de 1260 e 1390, em plena Idade Média, o que colocaria sua mística por terra. A pesquisa utilizou a técnica de contagem dos átomos de carbono 14, usada para definir a idade de achados arqueológicos. Ao longo dos anos, o carbono 14 vai se transformando em carbono 12, cuja estrutura é mais estável. Portanto, quanto mais antiga a peça menos moléculas de carbono 14 serão encontradas. A revelação teve repercussão mundial e o Vaticano admitiu a origem medieval do manto.

Decorridos dez anos, pairam dúvidas sobre a veracidade dos resultados do estudo científico de 1988. Uma pesquisa comandada por dois professores da Universidade de San Antonio, no Texas, revelou que a peça estava infestada de fungos e bactérias ricos em carbono 14. Quando tomaram conhecimento dessa novidade, os professores responsáveis pela pesquisa de datação na Universidade do Arizona apressaram-se em admitir que o tecido pode ser mais antigo do que se supunha porque a alta taxa de concentração de carbono 14 nas bactérias pode ter inflacionado a contagem dos átomos, levando à conclusão, eventualmente equivocada, de que o Sudário seria mais recente do que o tempo em que Jesus viveu.

Fogo — Um sem-número de perguntas sem resposta faz do Sudário uma das maiores incógnitas a desafiar a ciência. Descartada a hipótese de que a imagem tenha sido produzida pelo corpo de Jesus, não há explicação para o processo de formação do desenho no lençol, já que não se encontraram resíduos de tinta no tecido. "O teste das fibras sobre as quais está impressa a imagem revela um espectro de radiação semelhante a fogo, mas totalmente desconhecida pela física atual", diz Walter Demétrio Gonzales, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Essa radiação gravou sobre uma das faces do tecido, sem traspassá-lo, uma figura tridimensional, detectada por um computador da Nasa. O traçado da imagem também é curioso. Considerando a hipótese de que se trata de um desenho, suas características contradizem a tese da origem medieval. A técnica de sombreado, usada para dar volume à imagem, com a alternância de tons claros e escuros, apareceu apenas no Renascimento, cerca de 200 anos mais tarde.

Relíquias como o Santo Sudário são um elemento muito popular na tradição católica desde o século IV, tornando-se em alguns momentos mais importantes do que a eucaristia. Hoje, o culto ao lençol ganha força porque é cada vez mais forte a rejeição das formas institucionais de religiosidade, como as missas, em favor de uma volta ao que os especialistas chamam de "sagrado selvagem". "São as experiências básicas, espontâneas, naturais, não contaminadas pela civilização moderna", diz o padre e teólogo Alberto Antoniazzi. O Sudário dispensa a intermediação de um religioso para que os católicos tenham contato direto com o divino. Sua força reside na crença de que ali está a representação concreta e palpável de que Cristo viveu, morreu e ressuscitou. Não há alimento igual para a fé.